quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

Decadance, avec elegance


DECADÊNCIA, MAS COM ELEGÂNCIA(?)
“Uma discussão sobre a decadência(ou não) da nossa a(ini)miga televisão”



A dúvida é bem comum de ser ouvida. Será que a televisão brasileira encontra-se decadente? Será que os valores estão decadentes? Será que tudo está decadente? Será que nada está decadente, apenas nossos comentários é que gostam de tornar as coisas decadentes?

Eu não queria começar um texto da maneira mais esdrúxula e que muitos de meus alunos do(e dos seus, e dos nossos, e de todos nós) fazem nas suas redações, com uma introdução repleta de perguntas. Presunção da decadência textual deste aqui? Não, não quero veredas metalingüísticas nas minhas idéias, só quero tentar entender e tentar justificar e tentar mostrar e tentar ilustrar o que é televisão e se estamos mesmo diante de uma decadência ou continuísmo.

Pra começar, é necessário entender o que é um veículo televisivo. Não sou nenhum entendido, como muita gente que conheço. Entretanto, nestes meus vinte anos e alguma coisa de telespectador assíduo, pude perceber que o veículo televisivo é a mais bem sucedida idéia de transmissão de mídia que já foi criado. O jornal é interessante? Sim, mas necessita da visão e da imaginação, o que dá certo trabalho. O rádio é encantador? Sim, mas necessita da audição e da imaginação, o que dá certo cansaço. A Internet é fascinante? Sim, mas necessita de tato e um pouco de bom senso para saber aproveitá-la. E a televisão? Ora, quer coisa mais gostosa que sentar num sofazão, se espreguiçar, com um prato de comida e devorá-lo enquanto a sua visão, audição e tato(ora, tem o controle remoto) “zapeiam” em busca da melhor atração. E quanto a imaginação? Ora, nem queimamos nossos neurônios com isso...

Eis o problema: a imaginação tem, cada dia que passa, sumido mais e mais do meio televisivo. Tudo bem que um veículo que completa 72 anos esse ano – pois é, as primeiras transmissões datam de 1936, nas Olimpíadas de Berlim(em circuito fechado por toda Alemanha) e na França. E alguma coisa com mais de 50 anos(como é o caso da TV no Brasil) não pode agüentar picos eternos de criatividade. Por outro lado, verificamos que é comum, a cada dia que passa, vermos uma televisão mais pobre, mais cansativa e que cada vez mais dá espaço para ser rechaçada e se rechaçar com programação de qualidade duvidosa.

É claro que a televisão nem sempre foi um mar de felicidade e de criatividade em todo o seu transcorrer. A televisão já teve todo tipo de programa e, obviamente, muitos deles eram atrações de gosto pra lá de esquisito. Tento entender o que levou alguém a criar um programa chamado “Conheça Seu Atlas”(sim, isso é verdade, esse programa existiu na Bandeirantes dos anos 70) ou “Pernas Para o Sucesso”. Aliás, a própria inauguração da tevê no Brasil mostra claramente esse amadorismo que, de alguma forma, tornou a TV brasileira uma das mais originais de todos os tempos. Houve um tempo em que um certo Manoel da Nóbrega(o pai do Baú da Felicidade – “seu Sílvio” só tornou o produto rentável), inspirado numa cena inusitada que vira numa viagem a Argentina, olhou um homem num banco de praça tentando ler um jornal e sendo interrompido por tipos nada convencionais. Levou aquela idéia para uma emissora que funcionava no Edifício Liege, no Pacaembu. A tal emissora, a TV Paulista, de propriedade de Victor Costa, resolveu apostar naquela fórmula esquisita. E hoje, 56 anos depois, “A Praça da Alegria” – hoje “A Praça é Nossa” – continua no ar e é considerado a mais bem-sucedida fórmula do humor na televisão brasileira.

O que, por outro lado, não é uma coisa tão graciosa. Há uns dez anos, o programa pouco mostra senão piadas antigas e dubiedades horrorosas(ou horroríveis, como dizia meu irmão quando éramos crianças). Aliás, muitos programas tiveram que mudar ou adequar-se a novas realidades, com o passar dos anos. O “Jornal Nacional”, há 39 anos no ar, é uma prova disso: o que começou com um mero informativo(e, segundo alguns, um boletim diário dos feitos da Ditadura Militar), hoje é um informativo amplo e, até certo ponto, cansativo. Sem contar o bizarro casal apresentador.

A verdade é que a televisão nasceu para um público rico. Nem todas as pessoas podiam ter um aparelho de TV em 1950, 1960. Um aparelho de televisão custava quase ou mais que um carro, a depender do modelo! Isso é um absurdo, mas fazia com que a televisão se tornasse um produto meramente destinado aos interesses de um grupo seleto, que ligava a televisão somente a noite(não havia programação matutina) e telefonava para os estúdios para felicitar os apresentadores ou os atores pelo programa. Ou para repudiá-los, afinal, ‘cês sabem, né, mas nem Jesus ou Maomé ou Moisés ou Oxalá ou Buda agradou a todos...

Os anos 60 são tidos como o auge da televisão brasileira – e de onde provém as memórias mais antigas dos telespectadores, já que antigamente não existia o videotape. As emissoras viram-se como “donas da moda” e o televizinho começava cada vez mais a se popularizar, bem como o aparelho de TV; haviam até propagandas estimulando o dono do aparelho a sugerir o seu televizinho a comprar um aparelho em “suaves prestações”(umas 36 vezes, quem sabe...). A televisão ditava moda, com seus concursos de Miss Brasil(exclusivamente pela TV Tupi, do sr. Assis Chateubriand e os seus Diários Associados). A televisão ditava a cultura pop, com seriados como Bat Masterson, Dr. Kildare, Jornada nas Estrelas, Terra de Gigantes, Zorro(o original ou The Lone Ranger, chamado erroneamente de Zorro, o cavaleiro mascarado)... ou desenhos, como Pica-Pau, Pernalonga, Tom & Jerry, Flintstones, Manda-Chuva. A televisão ditava a música, fosse para os “rebeldes sem causa” da Jovem Guarda(Roberto Carlos, Erasmo Carlos, Wandérlea, Ronnie Von, Eduardo Araújo, só a brasa, mora?), fosse para os politizados dos festivais e do “Fino da Bossa”(Chico Buarque, Edu Lobo, Elis Regina, Milton Nascimento, MPB-4, Geraldo Vandré), fosse para os loucos tropicalistas do “Divino, Maravilhoso”(Caetano Veloso, Gal Costa, Gilberto Gil, Mutantes), sem contar os músicos multimídia, como Nara Leão, Jorge Ben e outros mais... A televisão ditava até os chororós e as brigas domésticas pelo jogo do Santos de Pelé versus o Palmeiras de Adhemir da Guia ou mais uma luta do Ted Boy Marino contra o Fantomas(no famoso “Telecatch Montilla”) ou um capítulo de Redenção ou O Direito de Nascer.

Ora, assim como hoje, havia muita porcaria também na televisão. A questão é que também existia, de certa maneira, um público mais seleto, que se por um lado deixava passar uma luta ensaiada entre marmanjos, por outro lado sabia apreciar um espetáculo da qualidade de Ray Charles, Sarah Vaughn, Miles Davis, Louis Armstrong... havia um público que sabia escolher o que valeria a pena. Tanto que dinamitaram produções bizarras que haviam na época, como as toscas novelas comédias da Record("Ceará Contra 007", "Quatro Homens Juntos", dentre outras) ou as bizarras novelas melodramáticas da Globo – sim, a hoje toda poderosa Rede Globo começou como uma emissora popularesca, com novelas feitas por uma cubana que odiava Fidel Castro(chegou a matar um personagem de Sebastião Vasconcelos porque dizia que ele parecia com Fidel) e que se passavam num ambiente totalmente fora da nossa realidade: Marrocos ou França ou Espanha... ah, com um touro feito com um pneu de bicicleta e uma duas valetas. Mas são detalhes... e que tinha também um certo Senor Abravanel, que era mais conhecido como Sílvio Santos. Sim, o “seu Sílvio” que eu falei acima

Um fator que muito ajudou ao desenvolvimento dessa qualidade na televisão foi a direção da TV Excelsior. Essa que foi a primeira televisão verdadeiramente profissional do Brasil(e que foi dinamitada por um conjunto de fatores, dentre eles dívidas e o interesse do governo militar em matar a emissora), foi justamente a responsável por imprimir um padrão de horário e uma grade seletiva, forçando a audiência, que vivia farta de esperar até meia-hora por um início de programa, já que os atrasos eram constantes, a buscar a organização e respeito ao telespectador. Respeito ao telespectador – respeito ao consumidor, como queiram. Esse é o segredo de uma emissora que quer crescer.

E foi o que justamente aconteceu com a Rede Globo, que trouxe da Excelsior o José Bonifácio de Oliveira Sobrinho – o Boni, como é mais conhecido. Com isso, a Globo extirpou seus programas mais populares(Dercy Gonçalves, Haroldo de Oliveira, Só o Amor Constrói, Chacrinha) e criou uma emissora extremamente profissional. Não quero discutir aqui se houve ou não apoio da ditadura; e houve mesmo, quem quiser que não acredite! Mas quero que compreendam que, por maior que fosse o apoio de um governo, a busca desenfreada pela qualidade de seus programas fez com que a emissora se tornasse líder em poucos anos, massacrando suas concorrentes diretas, como a Tupi e a Record. Essa última, aliás, agora pertencia a Sílvio Santos e que, anos depois, com a falência da Tupi, criou o seu SBT. E agora a coisa vai ficando interessante.

Não nego: sou um fã do negociante Sílvio Santos, mas um defenestrador do homem de televisão Sílvio Santos. Para mim, um dos mais notórios e espertos idiotas que a televisão produziu. Um “esperto idiota” porque sabe muito bem que seu papel de idiota é apenas uma encenação enquanto enche os bolsos de dinheiro. Seus negócios – até que prove-se o contrário – não são ilícitos, mas como homem de televisão, Sílvio Santos tenta embarcar na onda daquilo que pode. E andar por essa crista é uma situação complicada.

Em 1972, o número de aparelhos de televisão já era muito superior aos que existiam na década anterior. A televisão, ainda em preto e branco para a maioria da população, era um veículo absurdamente pop, impondo modas como o “corte Pigmaleão”(feito por Tônia Carreiro na novela “Pigmaleão 70”) ou o “colar Dino César”(usado pelo personagem de mesmo nome, interpretado pelo Mário Gomes na novela “Duas Vidas”). Até os jovens “contra o sistema” colavam a tarde na TV para delirar em shows do “Sábado Som”, na Globo, ou no “Som Pop”, da Tv Tupi. E até uma revista eletrônica existia, como opção ao “Um Instante, Maestro”, da Tupi: “Fantástico, o Show da Vida”. Sílvio Santos, por outro lado, cada vez mais sentia que era necessário formar sua própria emissora. Comprou a Record(usando um fazendeiro paulista como laranja) com esse sentido e conquistando uma concessão no Rio de Janeiro – a TVS, canal 11. Com seu padrão “tosquice sem tamanho”, a TVS era a prova viva de que era possível retroceder tudo que havia sido feito e, ainda assim, conquistar audiência. Quando Sílvio consegue a concessão da Tupi e forma o seu SBT(que no início chamava-se TVS-SBT, é bom que se diga), a coisa passa dos limites. Juntando o desespero da emissora falida em seus últimos suspiros – o decrépito “Aqui e Agora” – com uma fórmula ainda mais bizarra de busca pela audiência, eis que surge o clássico do popularesco na TV brasileira: “O Povo na TV”.

“O Povo na TV” é uma prova de que ainda haviam pessoas que curtiam baixarias típicas dos extintos programas “O Homem do Sapato Branco”(que voltou na TVS) e “Dercy Gonçalves”. Sua fórmula misticismo-denúncia-protesto-defesa do povão atraiu cada vez mais um contigente que, mesmo diante de uma inflação monstro, comprava aparelhos de televisão – em cores ou preto e branco. Uma emissora que criou “mitos” que, mesmo confrontados como criador e criatura(caso de Wagner Montes, que ao sofrer um acidente e perder a perna, teve essa notícia publicada no jornal “O Dia” da seguinte maneira: “Wagner Montes sofre acidente e já virou saci!”), não perdiam a chance de fazer atos moralistas, pseudo-ensaiados como em favor do menos favorecido, daquele que comprava seu feijão no maior sacrifício e não sabia que estava dando audiência a um conjunto sem tamanho de demagogos profissionais. Alguém aí lembrou o Legrumber?

Não é que antes de “O Povo na TV” houvesse televisão boa. Havia, como vimos, muita porcaria. E não é só ele que foi a dinamite da explosão decadente da TV ou do seu público. Vimos a TV querendo imprimir “meninas bonitinhas, gostosinhas, com carinhas de adolescente e nada inocentes” educando os nossos filhinhos na televisão. E, de uma hora para outra, não queríamos mais a Dona Benta ou a Paula Saldanha ou a Turma do Balão Mágico, mas sim, a Xuxa.

Ironicamente, Xuxa surge naquela que é considerada a emissora que mais quis ser de “primeira classe” no Brasil, a Manchete. A “emissora do ano 2000”(que nem chegou até lá, encerrou suas atividades de maneira suspeita em 1999, quando foi vendida para a TV Ômega e virou Rede TV!) procurou, desde seu início, um padrão de qualidade altamente avançado nos seus programas. Um padrão que oferecesse o máximo de interesse com o máximo de classe. Essa busca desenfreada pela TV “classe A”, por outro lado, afastou o povão, que agora dava mesmo audiência a TV. Assim, as novelas mexicanas importadas por Sílvio Santos conseguiam superar em audiência programas de altíssima qualidade, como “Um Toque de Classe” ou “Bar Academia”. Aos poucos, vendo a situação da maneira que estava, a Manchete foi abrindo a guarda e tornando-se uma emissora com elementos mais abrangentes – uma espécie de Globo, atingindo as classe A, B, C e D. Xuxa, que surgiu no início da emissora, era uma modelo grosseira com as crianças e que havia conquistado fama por namorar Pelé e por ter seduzido um garoto num filme chamado “Amor, Estranho Amor”(que hoje ela procura ocultar, mas tudo bem). Aos poucos, com a ajuda de meninas que “seguravam” a petizada, ela foi conseguindo afirmar seu “Clube da Criança” e trouxe o interesse da Vênus Platinada. E o resto é a história que todos nós conhecemos: uma overdose de meninas querendo pintar o cabelo de loiro e, diante da impossibilidade de ser Xuxa, ser a nova Paquita do momento. Agora, não era a qualidade do artista que estava sendo colocada em xeque, era seu status, o que ela era: a pseudo-amiguinha que te convidava a tomar café(mesmo que em casa você não tivesse um pão dormido para comer) e ver suas peripécias conduzindo brincadeiras entre os “guris”.

Xuxa ditou, assim, um novo padrão as apresentadoras de televisão: as mocinhas colegiais. De preferência, loirinhas. Tanto que a única morena que emplacou foi uma certa Evimari, ou mais conhecida como Mara Maravilha. Uma conterrânea minha, pois é. Mas, de mais a mais, era Angélica, Marianne, Eliana, Paty Beijo... e segue essa estrada.

Na verdade, nenhum dos personagens aqui citados são culpados diretos. Tenham certeza que Xuxa, “O Povo na TV”, “Telecatch Montilla”, Gugu Liberato(que é tão tosco que merece um texto só para defenestrá-lo), “Big Brother” e companhia jamais existiriam ou continuariam na TV por tanto tempo se o público tivesse um mínimo de consciência quanto a produção televisiva. Falar em decadência da TV é muito fácil, mas basta dar uma olhada na produção de TV de outros países e notar que o padrão não caiu. Tudo bem, nos Estados Unidos os “reality-shows” fizeram muito mais sucesso que por aqui. E “reality-show”, venhamos e convenhamos, é um tremendo pé-no-saco! Por outro lado, a mostra da criatividade de séries como “CSI”, “House”, “Monk”, “Heroes”, “Everybody Loves Raymond”, “Law & Order”, “Lost” e a longevidade de programas históricos, como “60 Minutes”, “Late Show With David Letterman”, “Saturday Night Live”, mostra que dá para se produzir o popular em conluio com a qualidade. Basta oferecer ao público um mix disso e dar a ele valoração cultural necessária.

Também não é culpa do público. A falta de qualidade educacional, a desmotivação pela qual os profissionais de ensino, a falta de interesse e valoração pela atividade em classe, tornam o brasileiro mais interessado no princípio “farinha pouca, meu pirão primeiro”, ou seja, não estou nem aí para o outro, quero o meu. Ninguém assiste “Balanço Geral” ou o detestável “Se Liga, Bocão” ou o “Big Brother Brasil” querendo ver justiça sendo feita, mas que o outro se ferre. É ver o meliante sendo filmado e sendo chamado de vagabundo. É ver o fofoqueiro ou o causador de intrigas se dando mal. E erra quem pensa que isso nos torna mais santos que eles: na verdade, somos tão cruéis quanto. Claro que não defendo criminoso ou causador de conflitos por aqui, mas procuro analisar o telespectador, que se desinteressa logo quando é um caso de bondade. Ou se afeiçoa pelo que necessita. Afeição ou desejo de humilhação? Nosso subconsciente é misterioso...

Não digo que a televisão não tem jeito. Entretanto, cada vez mais temos aberto espaço para que mídias de outros países tomem espaço na nossa produção televisiva. Ironicamente, no início, boa parte da nossa programação era recheada de filmes, desenhos e seriados. Estaremos voltando no tempo? Agora, não interessa o produto legítimo da Globo, da Record ou do SBT, mas a alardeada parceria “um clássico de Walt Disney”, “os grandes sucessos da Universal Studios” ou “só você vê aqui, com exclusividade, os programas da Warner Brothers”. Estamos submissos e podemos mudar. Mas não adianta querer mudar para trazer um novo Wilton Franco ou Jacinto Figueira Júnior. Ou uma nova Xuxa. Ou um novo Bam-bam. Tem que ser algo novo, original. Ares frescos, novos e renovados. Vida nova, como dizia o título da novela.

Cabe aos homens que dirigem a TV dar a ela um novo espaço para o crescimento. Apostar, “na força”, que dá pra fazer um produto melhor. Entretanto, ta difícil. O medo de perder a audiência e o medo de o povão perder seus “pseudo-defensores”(ou verdadeiros aproveitadores) vai criar, cada vez mais, um arcabouço próximo dessa tão falada decadência. De todos nós. Mas, é claro: com um toque de requinte e de elegância. Um toque de classe...

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EM TEMPO: queria deixar aqui expresso a intensa colaboração dos amigos da comunidade a TV Tupi, que em muitos papos trocados ao longo desses três anos de "orkuteiro", me deram a base necessária para escrever esse texto. Assim sendo, deixo um grande abraço para o grande Sérgio Mattar(a lenda viva da nossa TV), José Neto, Danilo Rodrigues, Nilson Xavier(o homem das telenovelas), Gustavo, Alexandre Sena, Marcílio, Paulo e tantos outros cujo o espaço não suficiente para dedicá-los. De coração, muito obrigado e vamos fazer esse tópico cada dia mais "A Cores" ou "Em cores", como manda a boa gramática - do professor e do aluno, e do mulato sabido. Mas, 'cês sabem, né, o bom negro e o bom branco, da nação brasileira, diz todos os dias: "Deixa disso, camarada! Vamo vê TV a cores!". Com a cortesia de Oswald de Andrade, o canalha paulista! Valeu, meus amigos!

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segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

Sérgio Sampaio


BOTANDO O BLOCO DA SINCERIDADE NA RUA




“A vida, a obra e a triste morte de um dos maiores gênios incompreendidos da MPB: Sérgio Sampaio”





Não vivi. Mas deve ter sido uma apoteose. O ano era 1972 e o local, Maracananzinho. Evento: VII Festival Internacional da Canção. De repente, eis que surge uma figura cabeluda, magrela, cara comprida, olhos de peixe-morto(que a nossa habilidade em absorver a língua dos outros hoje chama de blasè) e... um violão. Seu nome? Sérgio Morais Sampaio, ou simplesmente Sérgio Sampaio. A música? Apenas “Eu Quero é Botar Meu Bloco na Rua”.
Chega a ser irônico pensar que essa canção, hoje gritada pelos foliões do bloco “Os Mascarados(brilhantemente comandado por Margareth Menezes), é talvez a única obra conhecida desse genial compositor capixaba, oriundo da cidade de Cachoeiro do Itapemirin(a mesma terra de Roberto Carlos, de quem era ídolo), que teve todos os elementos possíveis para ser o artista anti-pop. Se sua aparência não colaborava, seu jeito de lidar no palco não era muito diferente. Some-se a isso o alcoolismo, que inclusive minou sua vida, e você terá algumas respostas para entender porque Sérgio Sampaio não explodiu como seu grande amigo Raul Seixas.
Epa, você falou de Raulzito? O nosso querido Raul Santos Seixas? O que se auto-intitulava o sócio número 1 do fã-clube de Elvis Presley na Bahia? Sim, ele mesmo, o saudoso “Maluco Beleza”. Se foi graças a Raul Seixas que a carreira e “o bloco” de Sérgio explodiram, o mesmo há de se dizer sobre a influência deste último na carreira de Raul.
Eram idos de 1971. Lá, encravado nos estúdios da CBS, o jovem Raul Seixas era apenas um produtor musical que vinha de uma carreira meio trôpega com a banda Raulzito e os Panteras. Problema chave: a banda tinha uma visão considerada já antiquada para os padrões roqueiros e não conseguia se estabelecer nem entre o Rock’n Roll(de Sérgio Murilo, Celly e Tony Campello e Demetrius), nem entre a Jovem Guarda(de Roberto Carlos, de Erasmo Carlos e de Eduardo Araújo) e nem entre a Tropicália(de Caetano Veloso, Tom Zé, Gilberto Gil e Os Mutantes). A visão de Raul Seixas era juntar o Rock’n Roll e dar um embalo tipicamente nordestino, mas buscando a crueza e simplicidade originais do Rock(coisa de gente como Bill Halley, Elvis Presley, Little Richards, Chuck Berry). Essa analogia, entretanto, soava moderna demais e curiosamente seria absorvida na cena novaiorquina em 1974, com o surgimento do movimento punk – mas isso é outra história, “ hey, ho, let’s go”? O certo é que o projeto de Raul não foi a frente e coube a ele produzir discos, dentre os quais, o primeiro álbum do Trio Ternura.
Foi um certo Odibar(parceiro do monstro sagrado pernambucano Paulo Diniz) quem apresentou o menino magrelo Sérgio Sampaio ao produtor Raul Seixas. Logo ficaram amigos e Raul conseguiu a contratação de Sérgio(com o pseudônimo de Sérgio Augusto) para a CBS. Depois de gravar alguns compactos de pouca expressão, Raul Seixas, Sérgio Sampaio e mais Mirian Batucada e Eddy Star(o baiano que toda geração Glitter Rock copiou) juntaram-se e, aproveitando uma viagem dos executivos da CBS, armaram a mais deliciosa ópera-bufa-patacoada da história da nossa Música Popular Brasileira: “A Sociedade da Gran-Ordem Kavernista Apresenta: Sessão das Dez”. O disco era tão louco, mas tão louco, que teve várias faixas do original censuradas. E não foi só pela tesoura do Regime Militar, mas pelos próprios executivos da gravadora, que ficaram “pês da vida” e demitiram todo mundo – inclusive o Raul Seixas.
Tinha problema não! Em 1972, Raul Seixas juntaria duas músicas suas – “Let Me Sing, Let Me Sing” e “Eu Sou Eu, Nicuri É o Diabo”, parceria com Edith Wisner – e conseguiria classificação para o VII Festival Internacional da Canção. Sérgio Sampaio, que havia conseguido convencer Raul a retomar a carreira de cantor, foi também provocado pelo seu amigo a inscrever uma canção(ele já havia participado de uma pré-seleção do V FIC, mas fora eliminado). Essa canção era justamente “Eu Quero Botar Meu Bloco na Rua”.
O resto foi história.
Contratado pela Philips/Polygram(ao lado do seu amigo Raul Seixas), saudado pelo público, pela crítica e principalmente pela belíssima musa da vanguarda Nara Leão, Sérgio Sampaio ganhou todas as flores que merecia(e continuaria merecendo, mas o destino, ‘cês sabem, né?). Num compacto dividido entre ele e a segunda colocada(“Diálogo”, de Baden Powell), vendeu fantásticas 500 mil cópias vendidas, o que era muito bom para um artista que há pouco tempo tinha passado fome e dormia de favor na casa de amigos, isso quando não dormia em bancos de praça. Sérgio era uma das grandes promessas que despontavam naquele Festival, considerado o último grande de todos os tempos. E olhe que ao seu lado, competindo, tinha muita gente boa além do Raul: Geraldo Azevedo, Alceu Valença, Raimundo Fagner, Oswaldo Montenegro...
Mas o que tinha tudo para ser uma grande carreira acabou sucumbindo. Tudo começou com seu disco “Eu Quero É Botar Meu Bloco na Rua”, lançado no ano seguinte, foi considerado um fracasso de vendas(constam que chegou a 5 mil cópias, somente). Difícil entender, já que o disco é simplesmente formidável, com músicas interessantes como “Odete”, “Meu Pobre Pai” e “Labirintos Negros”. Mas ali não estava um disco facilmente assimilado por um público que cada vez mais se dividia entre o brega(de Waldick Soriano, Dom & Ravel, Fernando Mendes) e entre a MPB(Chico Buarque, Elis Regina, Caetano Veloso). Sérgio acabou sendo relegado ao campo dos “artistas malditos”, que tinha muita gente boa, mas incompreendida pelo grande público.
Além do mais, some-se a isso que Sérgio Sampaio passou a ter pouco compromisso com sua própria carreira. Bebia demais, usava drogas demais, faltava shows, fazia apresentações completamente bêbado na televisão... seus casamentos ruíam, um atrás do outro. A personalidade difícil, o jeito rebelde e a forma de se comportar selaram definitivamente a carreira de Sérgio Sampaio.
Definitivamente? Não, podia ter uma esperança. Em 1974, Sérgio recebeu um convite que ele aguardava há anos: o de fazer uma música para o seu ídolo e conterrâneo Roberto Carlos. Seria o máximo da sua carreira e o colocaria novamente na mídia. Mas o empresário de Roberto, e não o próprio, foi quem negociou e a coisa deu errado. Ele exigiu que Sérgio Sampaio fizesse uma marcha-rancho, no mesmo estilo de “Eu Quero É Botar Meu Bloco na Rua”. Decepcionado, Sérgio não poupou seu próprio ídolo e mandou a letra de “Meu Pobre Blues”, que foi imediatamente rejeitada pelo empresário, já que a música era uma crítica elogiosa e ao mesmo tempo ácida sobre a carreira do recém-coroado “Rei da Música Brasileira”. Gravada num compacto no mesmo ano, mostrou toda a tristeza de Sérgio Sampaio em ser cobrado como um artista comum, uma mera xerox de si próprio.
Em 1976, Sérgio já era um desconhecido, mas ainda assim as gravadoras ainda acreditavam nele. A Continental, que tentava formar um cast de MPB(já tinha Maria Alcina, Novos Baianos, Fagner e Paulinho Soares em seu elenco), contratou Sérgio Sampaio para a gravação de um disco, podendo ser renovado para mais um. Surgiu “Tem Que Acontecer”, um disco impar e muito bem feito, mas que continuava a ser anti-pop e totalmente fora da visão que as gravadoras tanto queriam. Para elas, Sérgio Sampaio tornou-se passado.
Foram anos na fossa, sustentando-se dos direitos de gravação de “o bloco”(como a música ficou carinhosamente conhecida). O carnaval da Bahia, naquele momento dominado pelos grupos Dodô & Osmar, A Cor do Som(de Armandinho, filho de Osmar), Moraes Moreira, Novos Baianos, dentre outros, sempre trazia a música para os foliões. Tornou-se um clássico, mas para o público que cantava “que eu dormir de touca, que eu perdi a boca, que eu fugi da briga”, quem era Sérgio Sampaio?
Um casamento em 1981 reavivou a vida de Sérgio Sampaio, que com o financiamento da família da esposa, gravou seu derradeiro disco, o independente “Sinceramente”. Um disco cujo título expressa claramente a sensação de Sérgio Sampaio diante de sua obra, que sempre procurou ser sincera, sua, única, e não uma mera produção para os interesses dos donos de gravadoras e editoras musicais. Mas, mais uma vez, Sérgio Sampaio continuaria oculto nas mentes do grande público.
Ironicamente, Sérgio viria morar na terra de seu grande amigo Raul(que poucos sabem, mas passou uma fase de desconhecimento e piração ainda pior diante do grande público nos anos 80), perto deste morrer. O homem que foi aclamado e era cantado pelo público no Carnaval foi fazer shows num barzinho noturno de Salvador, o “Segredos de Itapuã”(que era, ao lado do Quiosque de Janaína e do Casquinha de Siri, um dos points da MPB em Salvador nos anos 70 e 80 – a história dos anos 90 pra cá é melhor nem comentar). Desintoxicado do álcool e fazendo tratamento, Sérgio tentava, timidamente, recomeçar a carreira. Deu entrevistas falando sobre a geração da MPB e, principalmente, sobre Raul Seixas. Pois é: o homem que conseguiu fazer Raul voltar a cantar agora era visto apenas como “mais um” companheiro do “Maluco Beleza”. Mas tudo bem, “Brida” vende milhões!


Em 1994, morando no Rio de Janeiro, Sérgio Sampaio “dormiu de touca”. Infelizmente, para sempre. Partiu, mas deixando uma obra prolífica, única, sincera. Será que ele deu bobeira? Será que Durango Kid o pegou mesmo? Não, ele não tem culpa e não tem porque pedir desculpas. Ele era de tudo, não era de nada. Se o grande público só se lembra de “O Bloco”, tudo bem! Sérgio, lá junto com Raulzito e Mirian – e toda a constelação de astros da nossa MPB que já subiram pro andar de cima – está fazendo a Gran-Ordem Kavernista. Sem hora pra começar. E sem hora para acabar.

sábado, 12 de janeiro de 2008

Um Artista em Desencanto


UM ARTISTA EM DESENCANTO

De como uma obra renegada pode se transformar numa obra única ou mais uma faceta de um gênio chamado Sebastião.



Sebastião Rodrigues Maia nunca esteve tão vivo. Quase dez anos depois de sua trágica morte(que começou nos palcos, um lugar onde foi venerado tanto quanto execrado, bem como cansou de não aparecer), nunca se falou tanto sobre um artista. Seja pela sua biografia, escrita pelo jornalista, compositor e musicólogo(só para simplificar) Nelson Motta lançada em dezembro de 2007, seja pelo volume um da coleção “Racional”, relançado pela Trama após trinta e dois anos fora de catálogo. Seja na boca do povo. Seja no que sempre ele foi: polêmico.
Desde os tempos da Tijuca e de suas reuniões(e discussões ou mesmo brigas) ao lado de Jorge Duílio, Roberto Carlos Braga e Erasmo Esteves, o jovem Sebastião reunia e concentrava suas forças em trazer a “música da alma” para os ouvidos de uma geração que vivia o paradigma da Bossa Nova, de um lado, e do Rock’n Roll, do outro. Na verdade, tratava-se do Soul Music, derivação do Gospel com o Rythm’n Blues, este originado do Jazz Bebop. A “música da alma”, esta que era tão buscada por Sebastião, acabou sendo absorvida de maneira completa quanto aquele “projeto de banda” não deu certo e ele rumou para os Estados Unidos, onde a sua odisséia com um carro roubado, maconha e “car wash” o trouxeram, deportado, de volta para o Brasil. Mas com a raiz da “música da alma” totalmente entremeada em seu sangue. Era um outro Sebastião. Agora ele era Tim Maia, não mais o jovem que roubava um pedaço da marmita da família do Erasmo, mas sim um violento intérprete – em todos os sentidos da palavra.
Impossível não descrever os primeiros discos de Tim Maia, lançados pela Polydor/Phonogram entre 1970 e 1973, como geniais. Deles, surgiram canções que se tornaram eternas, como “Gostava Tanto de Você”, “Primavera”, “Coronel Antônio Bento”, “Azul da Cor do Mar”, “Réu Confesso” e a clássica “Não Quero Dinheiro”. Um balanço samba-soul tomava conta de suas composições, injetadas de um forte suingue, de uma batida deliciosa e envolvente. Junte-se a isso a explosão da Soul Music no Brasil(difundida, principalmente, pelas trilhas sonoras de novelas da Globo, que tinha um acordo com a Top Tape, distribuidora do selo Motown no Brasil). Pronto: Tim Maia era o artista do momento!
Mas tudo isso era manejado a uma forte dose de drogas, principalmente a cocaína. O próprio Tim percebeu que estava colocando o trabalho em risco(ou não). Decidido a mudar tudo, em 1974 deu início a mudança que, certamente, marcaria como um divisor de águas em sua carreira: a absorção da filosofia religiosa conhecida como “Universo em Desencanto”. E, afinal, o que era isso? Proveniente de uma tal “Cultura Racional”, a “Universo em Desencanto” soa como uma mistura entre as filosofias da Cientologia com o Espiritismo Kardecista. Segundo a própria, a sua definição é a seguinte: “É o conhecimento da origem do ser humano. Saber de onde veio, a que veio, o que fez, o que fará, fazendo com que o homem retorne ao seu estado original de pureza”. Obviamente, essa filosofia era expandida por um livro próprio, o livro do “Universo Em Desencanto”, cujas idéias provinham de um ser conhecido como “Racional Superior” – provavelmente, um ser extraterrestre ou que estava em um plano superior.
A aproximação com essa cultura e com o próprio desejo de auto-purificação que Tim Maia buscava fizeram com que ele mergulhasse de cabeça na filosofia Racional. Rompeu os laços com a Phonogram, fundou seu próprio selo, o Seroma(anagrama de “Amores”), começou a andar de branco e usar instrumentos brancos, bem como anulou toda a sua obra anterior de seus shows – um processo que, curiosamente, seria repetido vinte anos depois pelo seu ex-companheiro de juventude Roberto Carlos Braga, agora conhecido mais pelos dois primeiros nomes. E, em 1975, lança o disco de difusão cultural da sua nova filosofia religiosa, o “Tim Maia Racional Volume 1”.
Entretanto, um ano depois, as coisas mudaram – e radicalmente. Irritado com o aparente oportunismo do líder da filosofia, Manoel Jacintho Coelho, Tim Maia largou a filosofia racional e voltou para a sua produção de souls ainda mais carnais e urbanos que antes. O marco desse Tim em retorno foi seu fenomenal “Tim Maia Disco Club”, de 1978, lançado pela recém-criada Warner. Mas o nosso objetivo nesse texto é discutir os álbuns “Racionais”, e é isso que iremos fazer. O ponto inicial, que é entender o que é “Universo em Desencanto”, já foi explicado. Resta agora entender porque esse disco é tão cultuado nos dias de hoje, se passa – aparentemente – de um disco de divulgação religiosa.
Pelo conhecimento de mercado, hoje em dia, um disco de divulgação religiosa deve conter sempre a imagem da fé defendida pelo cantor ou compositor da canção. Não são poucos os exemplos e se quisermos ter uma visão melhor deles, é só sintonizar um dos muitos canais religiosos que hoje existem e ver os programas de música gospel. Tim Maia não escapou desse conceito: em termos de letras, as músicas são pedaços claros do “Universo em Desencanto”. Só que, enquanto os músicos gospeis de hoje são jovens saídos de grupos de evangelização ou participantes de corais(só para simplificar e evitar polêmicas, já sendo polêmico), Sebastião era um verdadeiro monstro em termos de conhecimentos musicais. Junte-se a isso o fato de que ele possuía uma das melhores orquestras em termos de acompanhamento musical, a Vitória Régia. Além disso, a própria raiz da música Soul, como já vimos, era o próprio Gospel, a música cantada nas igrejas evangélicas dos negros americanos. Tim Maia apenas recortou aquela seleção e criou músicas que não se prendem somente ao princípio da divulgação racional.
Um exemplo? “Imunização Racional(Que Beleza)” é uma prova clara disso. A música mais conhecida dos dois discos tornou-se uma música de visão ampla. Recordo-me da primeira vez que a escutei e sequer sabia dos discos racionais. Na verdade, não só eu, mas uma boa parte do publico, que a reencontrou na voz de Gal Costa. Houve quem entendesse a música como uma defesa a natureza, uma música ecológica. Houve quem entendesse a canção como um tom litúrgico. Na verdade, é isso e muito mais. O mesmo se deduz de “O Caminho do Bem”, que também ficou amplamente conhecida na mesma época, por conta do filme “Cidade de Deus”. O que é o caminho do bem? A palavra bem nos traz vários conceitos, como propriedade, estado, comportamento, particularidade. Então, qual é o caminho do bem? Será que ele se resume ao papel da figura racional ou é o caminho de estar em evidência na sua própria intelectualidade ou será conseguir algo na vida, independente do que for? As perguntas são muitas, mas o disco traça, segundo a então concepção de Tim Maia, o painel amplo da visão racional, a de que o homem provém de uma pureza que é perdida em sua vida e necessita ser rebuscada.
Entretanto, de rebuscado mesmo, o disco expõe o máximo da instrumentação. Ao ouvi-lo, a letra torna-se secundária – aliás, uma contradição em termos de música popular brasileira, onde o letrista é sempre mais valorizado que o instrumentista e o cantor é sempre o mais valorizado de todos. Talvez sabendo que o livro girava sempre em torno do mesmo propósito, Tim Maia não vacilou e deu uma incorporação sonora jamais vista em outro dos seus discos. Mesmo que sonoramente os seus discos anteriores sejam melhores ou que seus discos posteriores sejam tão maravilhosos quanto, “Tim Maia Racional” destaca-se pela sonoridade estupidamente crua, principalmente na linha do baixo e da bateria. Uma cortesia sonora talvez jamais sentida numa música que, aparentemente, só tinha o propósito de divulgar uma filosofia religiosa – ou, como o próprio Tim diz no disco em várias faixas, “não é religião, não é seita, não é doutrina”.
Esse jeito único de ser do modo Tim Maia opera milagres, tornando faixas tecnicamente fracas em termos de letras como “Leia o Livro Universo em Desencanto” uma música para ser apreciada com o melhor dos gostos. Ou então letras de autopenitência, como “Bom Senso”, tornam-se pérolas magníficas em termos de profusão musical. O que é atingir “bom senso”? É somente a imunização racional, como diz o próprio Tim na letra? Ou será que nós temos que nos reciclar por toda a vida? Ou será reciclar o som? Tudo era Tim, independente de filosofia de terceiros.
O desencanto de Tim pelo “Universo em Desencanto”, entretanto, fez com que os discos, já pouco vendidos(muito mais pelo preconceito do que pela divulgação, embora essa fosse quase de maneira artesanal) fizeram que Tim Maia Racional, principalmente o segundo volume(ainda mais enérgico em termos musical, mas muito mais pobre em termos de letra que o primeiro), desaparecessem da vida das pessoas. Os que sobraram tornaram-se relíquias(não tão raras quanto chegou a se divulgar, mas difíceis de serem encontradas e caras) e hoje, mostram o talento de um certo Sebastião Rodrigues Maia – o homem Tim Maia, que o Jorge Duílio, hoje conhecido como Jorge Ben Jor, merecesse a honraria de ser chamado de “síndico”. Ou seja, o cara que quebra o pau e cuida da zona maravilhosa da música popular brasileira.

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Pequenas palavras sobre um blog pessoal e cultural. Ou não?


E assim começo meu blogger. A idéia surgiu há alguns meses, mas eu precisava me sentir de "coração tranqüilo" para fazê-lo. E aqui estou. "Pr1meiras 1déias" é um blogger meu para todos. Ou um blogger de todos para mim. Ou um blogger de todos para todos. Ou um blogger meu para mim. Todas as somas geram uma única resposta.
O que quero nesse blog não é trazer somente textos. É trazer discussões. Acaloradas. Quentes. Inteligentes. Ou não. O que pretendo é unicamente estar abrindo um leque de questionamentos que serão somados a toda semana, no tópico "Primeira Participação". Óbvio, se houver participação. O texto é livre, mas a origem, a "Primeira Impressão" partirá de mim e depois chegará a uma coalisão.
Mais do que um texto jornalístico ou pretencioso, palavras sobre a cultura nacional. O que vem não importa. O que são palavras se elas não tem uma motivação? O que é motivação se ela não tem um princípio? Bem, a nossa idéia por aqui é sermos o mais amplo possível nas nossas discussões. É levantarmos todas as causas possíveis sobre as idéias culturais e afins. Para abrir, trago para todos o texto "Um Artista em Desencanto", sobre a figura de Tim Maia e o seu renegado e hoje cultuado disco "Tim Maia Racional". Espero que degustem e saboreiem o texto da maneira mais deliciosa possível. Ou vomitem toda a raiva e atitude sobre essas palavras. As primeiras palavras de todos nós. E seguimos em frente!