
DECADÊNCIA, MAS COM ELEGÂNCIA(?)
“Uma discussão sobre a decadência(ou não) da nossa a(ini)miga televisão”
Pra começar, é necessário entender o que é um veículo televisivo. Não sou nenhum entendido, como muita gente que conheço. Entretanto, nestes meus vinte anos e alguma coisa de telespectador assíduo, pude perceber que o veículo televisivo é a mais bem sucedida idéia de transmissão de mídia que já foi criado. O jornal é interessante? Sim, mas necessita da visão e da imaginação, o que dá certo trabalho. O rádio é encantador? Sim, mas necessita da audição e da imaginação, o que dá certo cansaço. A Internet é fascinante? Sim, mas necessita de tato e um pouco de bom senso para saber aproveitá-la. E a televisão? Ora, quer coisa mais gostosa que sentar num sofazão, se espreguiçar, com um prato de comida e devorá-lo enquanto a sua visão, audição e tato(ora, tem o controle remoto) “zapeiam” em busca da melhor atração. E quanto a imaginação? Ora, nem queimamos nossos neurônios com isso...
Eis o problema: a imaginação tem, cada dia que passa, sumido mais e mais do meio televisivo. Tudo bem que um veículo que completa 72 anos esse ano – pois é, as primeiras transmissões datam de 1936, nas Olimpíadas de Berlim(em circuito fechado por toda Alemanha) e na França. E alguma coisa com mais de 50 anos(como é o caso da TV no Brasil) não pode agüentar picos eternos de criatividade. Por outro lado, verificamos que é comum, a cada dia que passa, vermos uma televisão mais pobre, mais cansativa e que cada vez mais dá espaço para ser rechaçada e se rechaçar com programação de qualidade duvidosa.
É claro que a televisão nem sempre foi um mar de felicidade e de criatividade em todo o seu transcorrer. A televisão já teve todo tipo de programa e, obviamente, muitos deles eram atrações de gosto pra lá de esquisito. Tento entender o que levou alguém a criar um programa chamado “Conheça Seu Atlas”(sim, isso é verdade, esse programa existiu na Bandeirantes dos anos 70) ou “Pernas Para o Sucesso”. Aliás, a própria inauguração da tevê no Brasil mostra claramente esse amadorismo que, de alguma forma, tornou a TV brasileira uma das mais originais de todos os tempos. Houve um tempo em que um certo Manoel da Nóbrega(o pai do Baú da Felicidade – “seu Sílvio” só tornou o produto rentável), inspirado numa cena inusitada que vira numa viagem a Argentina, olhou um homem num banco de praça tentando ler um jornal e sendo interrompido por tipos nada convencionais. Levou aquela idéia para uma emissora que funcionava no Edifício Liege, no Pacaembu. A tal emissora, a TV Paulista, de propriedade de Victor Costa, resolveu apostar naquela fórmula esquisita. E hoje, 56 anos depois, “A Praça da Alegria” – hoje “A Praça é Nossa” – continua no ar e é considerado a mais bem-sucedida fórmula do humor na televisão brasileira.
O que, por outro lado, não é uma coisa tão graciosa. Há uns dez anos, o programa pouco mostra senão piadas antigas e dubiedades horrorosas(ou horroríveis, como dizia meu irmão quando éramos crianças). Aliás, muitos programas tiveram que mudar ou adequar-se a novas realidades, com o passar dos anos. O “Jornal Nacional”, há 39 anos no ar, é uma prova disso: o que começou com um mero informativo(e, segundo alguns, um boletim diário dos feitos da Ditadura Militar), hoje é um informativo amplo e, até certo ponto, cansativo. Sem contar o bizarro casal apresentador.
A verdade é que a televisão nasceu para um público rico. Nem todas as pessoas podiam ter um aparelho de TV em 1950, 1960. Um aparelho de televisão custava quase ou mais que um carro, a depender do modelo! Isso é um absurdo, mas fazia com que a televisão se tornasse um produto meramente destinado aos interesses de um grupo seleto, que ligava a televisão somente a noite(não havia programação matutina) e telefonava para os estúdios para felicitar os apresentadores ou os atores pelo programa. Ou para repudiá-los, afinal, ‘cês sabem, né, mas nem Jesus ou Maomé ou Moisés ou Oxalá ou Buda agradou a todos...
Os anos 60 são tidos como o auge da televisão brasileira – e de onde provém as memórias mais antigas dos telespectadores, já que antigamente não existia o videotape. As emissoras viram-se como “donas da moda” e o televizinho começava cada vez mais a se popularizar, bem como o aparelho de TV; haviam até propagandas estimulando o dono do aparelho a sugerir o seu televizinho a comprar um aparelho em “suaves prestações”(umas 36 vezes, quem sabe...). A televisão ditava moda, com seus concursos de Miss Brasil(exclusivamente pela TV Tupi, do sr. Assis Chateubriand e os seus Diários Associados). A televisão ditava a cultura pop, com seriados como Bat Masterson, Dr. Kildare, Jornada nas Estrelas, Terra de Gigantes, Zorro(o original ou The Lone Ranger, chamado erroneamente de Zorro, o cavaleiro mascarado)... ou desenhos, como Pica-Pau, Pernalonga, Tom & Jerry, Flintstones, Manda-Chuva. A televisão ditava a música, fosse para os “rebeldes sem causa” da Jovem Guarda(Roberto Carlos, Erasmo Carlos, Wandérlea, Ronnie Von, Eduardo Araújo, só a brasa, mora?), fosse para os politizados dos festivais e do “Fino da Bossa”(Chico Buarque, Edu Lobo, Elis Regina, Milton Nascimento, MPB-4, Geraldo Vandré), fosse para os loucos tropicalistas do “Divino, Maravilhoso”(Caetano Veloso, Gal Costa, Gilberto Gil, Mutantes), sem contar os músicos multimídia, como Nara Leão, Jorge Ben e outros mais... A televisão ditava até os chororós e as brigas domésticas pelo jogo do Santos de Pelé versus o Palmeiras de Adhemir da Guia ou mais uma luta do Ted Boy Marino contra o Fantomas(no famoso “Telecatch Montilla”) ou um capítulo de Redenção ou O Direito de Nascer.
Ora, assim como hoje, havia muita porcaria também na televisão. A questão é que também existia, de certa maneira, um público mais seleto, que se por um lado deixava passar uma luta ensaiada entre marmanjos, por outro lado sabia apreciar um espetáculo da qualidade de Ray Charles, Sarah Vaughn, Miles Davis, Louis Armstrong... havia um público que sabia escolher o que valeria a pena. Tanto que dinamitaram produções bizarras que haviam na época, como as toscas novelas comédias da Record("Ceará Contra 007", "Quatro Homens Juntos", dentre outras) ou as bizarras novelas melodramáticas da Globo – sim, a hoje toda poderosa Rede Globo começou como uma emissora popularesca, com novelas feitas por uma cubana que odiava Fidel Castro(chegou a matar um personagem de Sebastião Vasconcelos porque dizia que ele parecia com Fidel) e que se passavam num ambiente totalmente fora da nossa realidade: Marrocos ou França ou Espanha... ah, com um touro feito com um pneu de bicicleta e uma duas valetas. Mas são detalhes... e que tinha também um certo Senor Abravanel, que era mais conhecido como Sílvio Santos. Sim, o “seu Sílvio” que eu falei acima
Um fator que muito ajudou ao desenvolvimento dessa qualidade na televisão foi a direção da TV Excelsior. Essa que foi a primeira televisão verdadeiramente profissional do Brasil(e que foi dinamitada por um conjunto de fatores, dentre eles dívidas e o interesse do governo militar em matar a emissora), foi justamente a responsável por imprimir um padrão de horário e uma grade seletiva, forçando a audiência, que vivia farta de esperar até meia-hora por um início de programa, já que os atrasos eram constantes, a buscar a organização e respeito ao telespectador. Respeito ao telespectador – respeito ao consumidor, como queiram. Esse é o segredo de uma emissora que quer crescer.
E foi o que justamente aconteceu com a Rede Globo, que trouxe da Excelsior o José Bonifácio de Oliveira Sobrinho – o Boni, como é mais conhecido. Com isso, a Globo extirpou seus programas mais populares(Dercy Gonçalves, Haroldo de Oliveira, Só o Amor Constrói, Chacrinha) e criou uma emissora extremamente profissional. Não quero discutir aqui se houve ou não apoio da ditadura; e houve mesmo, quem quiser que não acredite! Mas quero que compreendam que, por maior que fosse o apoio de um governo, a busca desenfreada pela qualidade de seus programas fez com que a emissora se tornasse líder em poucos anos, massacrando suas concorrentes diretas, como a Tupi e a Record. Essa última, aliás, agora pertencia a Sílvio Santos e que, anos depois, com a falência da Tupi, criou o seu SBT. E agora a coisa vai ficando interessante.
Não nego: sou um fã do negociante Sílvio Santos, mas um defenestrador do homem de televisão Sílvio Santos. Para mim, um dos mais notórios e espertos idiotas que a televisão produziu. Um “esperto idiota” porque sabe muito bem que seu papel de idiota é apenas uma encenação enquanto enche os bolsos de dinheiro. Seus negócios – até que prove-se o contrário – não são ilícitos, mas como homem de televisão, Sílvio Santos tenta embarcar na onda daquilo que pode. E andar por essa crista é uma situação complicada.
Em 1972, o número de aparelhos de televisão já era muito superior aos que existiam na década anterior. A televisão, ainda em preto e branco para a maioria da população, era um veículo absurdamente pop, impondo modas como o “corte Pigmaleão”(feito por Tônia Carreiro na novela “Pigmaleão 70”) ou o “colar Dino César”(usado pelo personagem de mesmo nome, interpretado pelo Mário Gomes na novela “Duas Vidas”). Até os jovens “contra o sistema” colavam a tarde na TV para delirar em shows do “Sábado Som”, na Globo, ou no “Som Pop”, da Tv Tupi. E até uma revista eletrônica existia, como opção ao “Um Instante, Maestro”, da Tupi: “Fantástico, o Show da Vida”. Sílvio Santos, por outro lado, cada vez mais sentia que era necessário formar sua própria emissora. Comprou a Record(usando um fazendeiro paulista como laranja) com esse sentido e conquistando uma concessão no Rio de Janeiro – a TVS, canal 11. Com seu padrão “tosquice sem tamanho”, a TVS era a prova viva de que era possível retroceder tudo que havia sido feito e, ainda assim, conquistar audiência. Quando Sílvio consegue a concessão da Tupi e forma o seu SBT(que no início chamava-se TVS-SBT, é bom que se diga), a coisa passa dos limites. Juntando o desespero da emissora falida em seus últimos suspiros – o decrépito “Aqui e Agora” – com uma fórmula ainda mais bizarra de busca pela audiência, eis que surge o clássico do popularesco na TV brasileira: “O Povo na TV”.
“O Povo na TV” é uma prova de que ainda haviam pessoas que curtiam baixarias típicas dos extintos programas “O Homem do Sapato Branco”(que voltou na TVS) e “Dercy Gonçalves”. Sua fórmula misticismo-denúncia-protesto-defesa do povão atraiu cada vez mais um contigente que, mesmo diante de uma inflação monstro, comprava aparelhos de televisão – em cores ou preto e branco. Uma emissora que criou “mitos” que, mesmo confrontados como criador e criatura(caso de Wagner Montes, que ao sofrer um acidente e perder a perna, teve essa notícia publicada no jornal “O Dia” da seguinte maneira: “Wagner Montes sofre acidente e já virou saci!”), não perdiam a chance de fazer atos moralistas, pseudo-ensaiados como em favor do menos favorecido, daquele que comprava seu feijão no maior sacrifício e não sabia que estava dando audiência a um conjunto sem tamanho de demagogos profissionais. Alguém aí lembrou o Legrumber?
Não é que antes de “O Povo na TV” houvesse televisão boa. Havia, como vimos, muita porcaria. E não é só ele que foi a dinamite da explosão decadente da TV ou do seu público. Vimos a TV querendo imprimir “meninas bonitinhas, gostosinhas, com carinhas de adolescente e nada inocentes” educando os nossos filhinhos na televisão. E, de uma hora para outra, não queríamos mais a Dona Benta ou a Paula Saldanha ou a Turma do Balão Mágico, mas sim, a Xuxa.
Ironicamente, Xuxa surge naquela que é considerada a emissora que mais quis ser de “primeira classe” no Brasil, a Manchete. A “emissora do ano 2000”(que nem chegou até lá, encerrou suas atividades de maneira suspeita em 1999, quando foi vendida para a TV Ômega e virou Rede TV!) procurou, desde seu início, um padrão de qualidade altamente avançado nos seus programas. Um padrão que oferecesse o máximo de interesse com o máximo de classe. Essa busca desenfreada pela TV “classe A”, por outro lado, afastou o povão, que agora dava mesmo audiência a TV. Assim, as novelas mexicanas importadas por Sílvio Santos conseguiam superar em audiência programas de altíssima qualidade, como “Um Toque de Classe” ou “Bar Academia”. Aos poucos, vendo a situação da maneira que estava, a Manchete foi abrindo a guarda e tornando-se uma emissora com elementos mais abrangentes – uma espécie de Globo, atingindo as classe A, B, C e D. Xuxa, que surgiu no início da emissora, era uma modelo grosseira com as crianças e que havia conquistado fama por namorar Pelé e por ter seduzido um garoto num filme chamado “Amor, Estranho Amor”(que hoje ela procura ocultar, mas tudo bem). Aos poucos, com a ajuda de meninas que “seguravam” a petizada, ela foi conseguindo afirmar seu “Clube da Criança” e trouxe o interesse da Vênus Platinada. E o resto é a história que todos nós conhecemos: uma overdose de meninas querendo pintar o cabelo de loiro e, diante da impossibilidade de ser Xuxa, ser a nova Paquita do momento. Agora, não era a qualidade do artista que estava sendo colocada em xeque, era seu status, o que ela era: a pseudo-amiguinha que te convidava a tomar café(mesmo que em casa você não tivesse um pão dormido para comer) e ver suas peripécias conduzindo brincadeiras entre os “guris”.
Xuxa ditou, assim, um novo padrão as apresentadoras de televisão: as mocinhas colegiais. De preferência, loirinhas. Tanto que a única morena que emplacou foi uma certa Evimari, ou mais conhecida como Mara Maravilha. Uma conterrânea minha, pois é. Mas, de mais a mais, era Angélica, Marianne, Eliana, Paty Beijo... e segue essa estrada.
Na verdade, nenhum dos personagens aqui citados são culpados diretos. Tenham certeza que Xuxa, “O Povo na TV”, “Telecatch Montilla”, Gugu Liberato(que é tão tosco que merece um texto só para defenestrá-lo), “Big Brother” e companhia jamais existiriam ou continuariam na TV por tanto tempo se o público tivesse um mínimo de consciência quanto a produção televisiva. Falar em decadência da TV é muito fácil, mas basta dar uma olhada na produção de TV de outros países e notar que o padrão não caiu. Tudo bem, nos Estados Unidos os “reality-shows” fizeram muito mais sucesso que por aqui. E “reality-show”, venhamos e convenhamos, é um tremendo pé-no-saco! Por outro lado, a mostra da criatividade de séries como “CSI”, “House”, “Monk”, “Heroes”, “Everybody Loves Raymond”, “Law & Order”, “Lost” e a longevidade de programas históricos, como “60 Minutes”, “Late Show With David Letterman”, “Saturday Night Live”, mostra que dá para se produzir o popular em conluio com a qualidade. Basta oferecer ao público um mix disso e dar a ele valoração cultural necessária.
Também não é culpa do público. A falta de qualidade educacional, a desmotivação pela qual os profissionais de ensino, a falta de interesse e valoração pela atividade em classe, tornam o brasileiro mais interessado no princípio “farinha pouca, meu pirão primeiro”, ou seja, não estou nem aí para o outro, quero o meu. Ninguém assiste “Balanço Geral” ou o detestável “Se Liga, Bocão” ou o “Big Brother Brasil” querendo ver justiça sendo feita, mas que o outro se ferre. É ver o meliante sendo filmado e sendo chamado de vagabundo. É ver o fofoqueiro ou o causador de intrigas se dando mal. E erra quem pensa que isso nos torna mais santos que eles: na verdade, somos tão cruéis quanto. Claro que não defendo criminoso ou causador de conflitos por aqui, mas procuro analisar o telespectador, que se desinteressa logo quando é um caso de bondade. Ou se afeiçoa pelo que necessita. Afeição ou desejo de humilhação? Nosso subconsciente é misterioso...
Não digo que a televisão não tem jeito. Entretanto, cada vez mais temos aberto espaço para que mídias de outros países tomem espaço na nossa produção televisiva. Ironicamente, no início, boa parte da nossa programação era recheada de filmes, desenhos e seriados. Estaremos voltando no tempo? Agora, não interessa o produto legítimo da Globo, da Record ou do SBT, mas a alardeada parceria “um clássico de Walt Disney”, “os grandes sucessos da Universal Studios” ou “só você vê aqui, com exclusividade, os programas da Warner Brothers”. Estamos submissos e podemos mudar. Mas não adianta querer mudar para trazer um novo Wilton Franco ou Jacinto Figueira Júnior. Ou uma nova Xuxa. Ou um novo Bam-bam. Tem que ser algo novo, original. Ares frescos, novos e renovados. Vida nova, como dizia o título da novela.
Cabe aos homens que dirigem a TV dar a ela um novo espaço para o crescimento. Apostar, “na força”, que dá pra fazer um produto melhor. Entretanto, ta difícil. O medo de perder a audiência e o medo de o povão perder seus “pseudo-defensores”(ou verdadeiros aproveitadores) vai criar, cada vez mais, um arcabouço próximo dessa tão falada decadência. De todos nós. Mas, é claro: com um toque de requinte e de elegância. Um toque de classe...

