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segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

Sérgio Sampaio


BOTANDO O BLOCO DA SINCERIDADE NA RUA




“A vida, a obra e a triste morte de um dos maiores gênios incompreendidos da MPB: Sérgio Sampaio”





Não vivi. Mas deve ter sido uma apoteose. O ano era 1972 e o local, Maracananzinho. Evento: VII Festival Internacional da Canção. De repente, eis que surge uma figura cabeluda, magrela, cara comprida, olhos de peixe-morto(que a nossa habilidade em absorver a língua dos outros hoje chama de blasè) e... um violão. Seu nome? Sérgio Morais Sampaio, ou simplesmente Sérgio Sampaio. A música? Apenas “Eu Quero é Botar Meu Bloco na Rua”.
Chega a ser irônico pensar que essa canção, hoje gritada pelos foliões do bloco “Os Mascarados(brilhantemente comandado por Margareth Menezes), é talvez a única obra conhecida desse genial compositor capixaba, oriundo da cidade de Cachoeiro do Itapemirin(a mesma terra de Roberto Carlos, de quem era ídolo), que teve todos os elementos possíveis para ser o artista anti-pop. Se sua aparência não colaborava, seu jeito de lidar no palco não era muito diferente. Some-se a isso o alcoolismo, que inclusive minou sua vida, e você terá algumas respostas para entender porque Sérgio Sampaio não explodiu como seu grande amigo Raul Seixas.
Epa, você falou de Raulzito? O nosso querido Raul Santos Seixas? O que se auto-intitulava o sócio número 1 do fã-clube de Elvis Presley na Bahia? Sim, ele mesmo, o saudoso “Maluco Beleza”. Se foi graças a Raul Seixas que a carreira e “o bloco” de Sérgio explodiram, o mesmo há de se dizer sobre a influência deste último na carreira de Raul.
Eram idos de 1971. Lá, encravado nos estúdios da CBS, o jovem Raul Seixas era apenas um produtor musical que vinha de uma carreira meio trôpega com a banda Raulzito e os Panteras. Problema chave: a banda tinha uma visão considerada já antiquada para os padrões roqueiros e não conseguia se estabelecer nem entre o Rock’n Roll(de Sérgio Murilo, Celly e Tony Campello e Demetrius), nem entre a Jovem Guarda(de Roberto Carlos, de Erasmo Carlos e de Eduardo Araújo) e nem entre a Tropicália(de Caetano Veloso, Tom Zé, Gilberto Gil e Os Mutantes). A visão de Raul Seixas era juntar o Rock’n Roll e dar um embalo tipicamente nordestino, mas buscando a crueza e simplicidade originais do Rock(coisa de gente como Bill Halley, Elvis Presley, Little Richards, Chuck Berry). Essa analogia, entretanto, soava moderna demais e curiosamente seria absorvida na cena novaiorquina em 1974, com o surgimento do movimento punk – mas isso é outra história, “ hey, ho, let’s go”? O certo é que o projeto de Raul não foi a frente e coube a ele produzir discos, dentre os quais, o primeiro álbum do Trio Ternura.
Foi um certo Odibar(parceiro do monstro sagrado pernambucano Paulo Diniz) quem apresentou o menino magrelo Sérgio Sampaio ao produtor Raul Seixas. Logo ficaram amigos e Raul conseguiu a contratação de Sérgio(com o pseudônimo de Sérgio Augusto) para a CBS. Depois de gravar alguns compactos de pouca expressão, Raul Seixas, Sérgio Sampaio e mais Mirian Batucada e Eddy Star(o baiano que toda geração Glitter Rock copiou) juntaram-se e, aproveitando uma viagem dos executivos da CBS, armaram a mais deliciosa ópera-bufa-patacoada da história da nossa Música Popular Brasileira: “A Sociedade da Gran-Ordem Kavernista Apresenta: Sessão das Dez”. O disco era tão louco, mas tão louco, que teve várias faixas do original censuradas. E não foi só pela tesoura do Regime Militar, mas pelos próprios executivos da gravadora, que ficaram “pês da vida” e demitiram todo mundo – inclusive o Raul Seixas.
Tinha problema não! Em 1972, Raul Seixas juntaria duas músicas suas – “Let Me Sing, Let Me Sing” e “Eu Sou Eu, Nicuri É o Diabo”, parceria com Edith Wisner – e conseguiria classificação para o VII Festival Internacional da Canção. Sérgio Sampaio, que havia conseguido convencer Raul a retomar a carreira de cantor, foi também provocado pelo seu amigo a inscrever uma canção(ele já havia participado de uma pré-seleção do V FIC, mas fora eliminado). Essa canção era justamente “Eu Quero Botar Meu Bloco na Rua”.
O resto foi história.
Contratado pela Philips/Polygram(ao lado do seu amigo Raul Seixas), saudado pelo público, pela crítica e principalmente pela belíssima musa da vanguarda Nara Leão, Sérgio Sampaio ganhou todas as flores que merecia(e continuaria merecendo, mas o destino, ‘cês sabem, né?). Num compacto dividido entre ele e a segunda colocada(“Diálogo”, de Baden Powell), vendeu fantásticas 500 mil cópias vendidas, o que era muito bom para um artista que há pouco tempo tinha passado fome e dormia de favor na casa de amigos, isso quando não dormia em bancos de praça. Sérgio era uma das grandes promessas que despontavam naquele Festival, considerado o último grande de todos os tempos. E olhe que ao seu lado, competindo, tinha muita gente boa além do Raul: Geraldo Azevedo, Alceu Valença, Raimundo Fagner, Oswaldo Montenegro...
Mas o que tinha tudo para ser uma grande carreira acabou sucumbindo. Tudo começou com seu disco “Eu Quero É Botar Meu Bloco na Rua”, lançado no ano seguinte, foi considerado um fracasso de vendas(constam que chegou a 5 mil cópias, somente). Difícil entender, já que o disco é simplesmente formidável, com músicas interessantes como “Odete”, “Meu Pobre Pai” e “Labirintos Negros”. Mas ali não estava um disco facilmente assimilado por um público que cada vez mais se dividia entre o brega(de Waldick Soriano, Dom & Ravel, Fernando Mendes) e entre a MPB(Chico Buarque, Elis Regina, Caetano Veloso). Sérgio acabou sendo relegado ao campo dos “artistas malditos”, que tinha muita gente boa, mas incompreendida pelo grande público.
Além do mais, some-se a isso que Sérgio Sampaio passou a ter pouco compromisso com sua própria carreira. Bebia demais, usava drogas demais, faltava shows, fazia apresentações completamente bêbado na televisão... seus casamentos ruíam, um atrás do outro. A personalidade difícil, o jeito rebelde e a forma de se comportar selaram definitivamente a carreira de Sérgio Sampaio.
Definitivamente? Não, podia ter uma esperança. Em 1974, Sérgio recebeu um convite que ele aguardava há anos: o de fazer uma música para o seu ídolo e conterrâneo Roberto Carlos. Seria o máximo da sua carreira e o colocaria novamente na mídia. Mas o empresário de Roberto, e não o próprio, foi quem negociou e a coisa deu errado. Ele exigiu que Sérgio Sampaio fizesse uma marcha-rancho, no mesmo estilo de “Eu Quero É Botar Meu Bloco na Rua”. Decepcionado, Sérgio não poupou seu próprio ídolo e mandou a letra de “Meu Pobre Blues”, que foi imediatamente rejeitada pelo empresário, já que a música era uma crítica elogiosa e ao mesmo tempo ácida sobre a carreira do recém-coroado “Rei da Música Brasileira”. Gravada num compacto no mesmo ano, mostrou toda a tristeza de Sérgio Sampaio em ser cobrado como um artista comum, uma mera xerox de si próprio.
Em 1976, Sérgio já era um desconhecido, mas ainda assim as gravadoras ainda acreditavam nele. A Continental, que tentava formar um cast de MPB(já tinha Maria Alcina, Novos Baianos, Fagner e Paulinho Soares em seu elenco), contratou Sérgio Sampaio para a gravação de um disco, podendo ser renovado para mais um. Surgiu “Tem Que Acontecer”, um disco impar e muito bem feito, mas que continuava a ser anti-pop e totalmente fora da visão que as gravadoras tanto queriam. Para elas, Sérgio Sampaio tornou-se passado.
Foram anos na fossa, sustentando-se dos direitos de gravação de “o bloco”(como a música ficou carinhosamente conhecida). O carnaval da Bahia, naquele momento dominado pelos grupos Dodô & Osmar, A Cor do Som(de Armandinho, filho de Osmar), Moraes Moreira, Novos Baianos, dentre outros, sempre trazia a música para os foliões. Tornou-se um clássico, mas para o público que cantava “que eu dormir de touca, que eu perdi a boca, que eu fugi da briga”, quem era Sérgio Sampaio?
Um casamento em 1981 reavivou a vida de Sérgio Sampaio, que com o financiamento da família da esposa, gravou seu derradeiro disco, o independente “Sinceramente”. Um disco cujo título expressa claramente a sensação de Sérgio Sampaio diante de sua obra, que sempre procurou ser sincera, sua, única, e não uma mera produção para os interesses dos donos de gravadoras e editoras musicais. Mas, mais uma vez, Sérgio Sampaio continuaria oculto nas mentes do grande público.
Ironicamente, Sérgio viria morar na terra de seu grande amigo Raul(que poucos sabem, mas passou uma fase de desconhecimento e piração ainda pior diante do grande público nos anos 80), perto deste morrer. O homem que foi aclamado e era cantado pelo público no Carnaval foi fazer shows num barzinho noturno de Salvador, o “Segredos de Itapuã”(que era, ao lado do Quiosque de Janaína e do Casquinha de Siri, um dos points da MPB em Salvador nos anos 70 e 80 – a história dos anos 90 pra cá é melhor nem comentar). Desintoxicado do álcool e fazendo tratamento, Sérgio tentava, timidamente, recomeçar a carreira. Deu entrevistas falando sobre a geração da MPB e, principalmente, sobre Raul Seixas. Pois é: o homem que conseguiu fazer Raul voltar a cantar agora era visto apenas como “mais um” companheiro do “Maluco Beleza”. Mas tudo bem, “Brida” vende milhões!


Em 1994, morando no Rio de Janeiro, Sérgio Sampaio “dormiu de touca”. Infelizmente, para sempre. Partiu, mas deixando uma obra prolífica, única, sincera. Será que ele deu bobeira? Será que Durango Kid o pegou mesmo? Não, ele não tem culpa e não tem porque pedir desculpas. Ele era de tudo, não era de nada. Se o grande público só se lembra de “O Bloco”, tudo bem! Sérgio, lá junto com Raulzito e Mirian – e toda a constelação de astros da nossa MPB que já subiram pro andar de cima – está fazendo a Gran-Ordem Kavernista. Sem hora pra começar. E sem hora para acabar.

sábado, 12 de janeiro de 2008

Um Artista em Desencanto


UM ARTISTA EM DESENCANTO

De como uma obra renegada pode se transformar numa obra única ou mais uma faceta de um gênio chamado Sebastião.



Sebastião Rodrigues Maia nunca esteve tão vivo. Quase dez anos depois de sua trágica morte(que começou nos palcos, um lugar onde foi venerado tanto quanto execrado, bem como cansou de não aparecer), nunca se falou tanto sobre um artista. Seja pela sua biografia, escrita pelo jornalista, compositor e musicólogo(só para simplificar) Nelson Motta lançada em dezembro de 2007, seja pelo volume um da coleção “Racional”, relançado pela Trama após trinta e dois anos fora de catálogo. Seja na boca do povo. Seja no que sempre ele foi: polêmico.
Desde os tempos da Tijuca e de suas reuniões(e discussões ou mesmo brigas) ao lado de Jorge Duílio, Roberto Carlos Braga e Erasmo Esteves, o jovem Sebastião reunia e concentrava suas forças em trazer a “música da alma” para os ouvidos de uma geração que vivia o paradigma da Bossa Nova, de um lado, e do Rock’n Roll, do outro. Na verdade, tratava-se do Soul Music, derivação do Gospel com o Rythm’n Blues, este originado do Jazz Bebop. A “música da alma”, esta que era tão buscada por Sebastião, acabou sendo absorvida de maneira completa quanto aquele “projeto de banda” não deu certo e ele rumou para os Estados Unidos, onde a sua odisséia com um carro roubado, maconha e “car wash” o trouxeram, deportado, de volta para o Brasil. Mas com a raiz da “música da alma” totalmente entremeada em seu sangue. Era um outro Sebastião. Agora ele era Tim Maia, não mais o jovem que roubava um pedaço da marmita da família do Erasmo, mas sim um violento intérprete – em todos os sentidos da palavra.
Impossível não descrever os primeiros discos de Tim Maia, lançados pela Polydor/Phonogram entre 1970 e 1973, como geniais. Deles, surgiram canções que se tornaram eternas, como “Gostava Tanto de Você”, “Primavera”, “Coronel Antônio Bento”, “Azul da Cor do Mar”, “Réu Confesso” e a clássica “Não Quero Dinheiro”. Um balanço samba-soul tomava conta de suas composições, injetadas de um forte suingue, de uma batida deliciosa e envolvente. Junte-se a isso a explosão da Soul Music no Brasil(difundida, principalmente, pelas trilhas sonoras de novelas da Globo, que tinha um acordo com a Top Tape, distribuidora do selo Motown no Brasil). Pronto: Tim Maia era o artista do momento!
Mas tudo isso era manejado a uma forte dose de drogas, principalmente a cocaína. O próprio Tim percebeu que estava colocando o trabalho em risco(ou não). Decidido a mudar tudo, em 1974 deu início a mudança que, certamente, marcaria como um divisor de águas em sua carreira: a absorção da filosofia religiosa conhecida como “Universo em Desencanto”. E, afinal, o que era isso? Proveniente de uma tal “Cultura Racional”, a “Universo em Desencanto” soa como uma mistura entre as filosofias da Cientologia com o Espiritismo Kardecista. Segundo a própria, a sua definição é a seguinte: “É o conhecimento da origem do ser humano. Saber de onde veio, a que veio, o que fez, o que fará, fazendo com que o homem retorne ao seu estado original de pureza”. Obviamente, essa filosofia era expandida por um livro próprio, o livro do “Universo Em Desencanto”, cujas idéias provinham de um ser conhecido como “Racional Superior” – provavelmente, um ser extraterrestre ou que estava em um plano superior.
A aproximação com essa cultura e com o próprio desejo de auto-purificação que Tim Maia buscava fizeram com que ele mergulhasse de cabeça na filosofia Racional. Rompeu os laços com a Phonogram, fundou seu próprio selo, o Seroma(anagrama de “Amores”), começou a andar de branco e usar instrumentos brancos, bem como anulou toda a sua obra anterior de seus shows – um processo que, curiosamente, seria repetido vinte anos depois pelo seu ex-companheiro de juventude Roberto Carlos Braga, agora conhecido mais pelos dois primeiros nomes. E, em 1975, lança o disco de difusão cultural da sua nova filosofia religiosa, o “Tim Maia Racional Volume 1”.
Entretanto, um ano depois, as coisas mudaram – e radicalmente. Irritado com o aparente oportunismo do líder da filosofia, Manoel Jacintho Coelho, Tim Maia largou a filosofia racional e voltou para a sua produção de souls ainda mais carnais e urbanos que antes. O marco desse Tim em retorno foi seu fenomenal “Tim Maia Disco Club”, de 1978, lançado pela recém-criada Warner. Mas o nosso objetivo nesse texto é discutir os álbuns “Racionais”, e é isso que iremos fazer. O ponto inicial, que é entender o que é “Universo em Desencanto”, já foi explicado. Resta agora entender porque esse disco é tão cultuado nos dias de hoje, se passa – aparentemente – de um disco de divulgação religiosa.
Pelo conhecimento de mercado, hoje em dia, um disco de divulgação religiosa deve conter sempre a imagem da fé defendida pelo cantor ou compositor da canção. Não são poucos os exemplos e se quisermos ter uma visão melhor deles, é só sintonizar um dos muitos canais religiosos que hoje existem e ver os programas de música gospel. Tim Maia não escapou desse conceito: em termos de letras, as músicas são pedaços claros do “Universo em Desencanto”. Só que, enquanto os músicos gospeis de hoje são jovens saídos de grupos de evangelização ou participantes de corais(só para simplificar e evitar polêmicas, já sendo polêmico), Sebastião era um verdadeiro monstro em termos de conhecimentos musicais. Junte-se a isso o fato de que ele possuía uma das melhores orquestras em termos de acompanhamento musical, a Vitória Régia. Além disso, a própria raiz da música Soul, como já vimos, era o próprio Gospel, a música cantada nas igrejas evangélicas dos negros americanos. Tim Maia apenas recortou aquela seleção e criou músicas que não se prendem somente ao princípio da divulgação racional.
Um exemplo? “Imunização Racional(Que Beleza)” é uma prova clara disso. A música mais conhecida dos dois discos tornou-se uma música de visão ampla. Recordo-me da primeira vez que a escutei e sequer sabia dos discos racionais. Na verdade, não só eu, mas uma boa parte do publico, que a reencontrou na voz de Gal Costa. Houve quem entendesse a música como uma defesa a natureza, uma música ecológica. Houve quem entendesse a canção como um tom litúrgico. Na verdade, é isso e muito mais. O mesmo se deduz de “O Caminho do Bem”, que também ficou amplamente conhecida na mesma época, por conta do filme “Cidade de Deus”. O que é o caminho do bem? A palavra bem nos traz vários conceitos, como propriedade, estado, comportamento, particularidade. Então, qual é o caminho do bem? Será que ele se resume ao papel da figura racional ou é o caminho de estar em evidência na sua própria intelectualidade ou será conseguir algo na vida, independente do que for? As perguntas são muitas, mas o disco traça, segundo a então concepção de Tim Maia, o painel amplo da visão racional, a de que o homem provém de uma pureza que é perdida em sua vida e necessita ser rebuscada.
Entretanto, de rebuscado mesmo, o disco expõe o máximo da instrumentação. Ao ouvi-lo, a letra torna-se secundária – aliás, uma contradição em termos de música popular brasileira, onde o letrista é sempre mais valorizado que o instrumentista e o cantor é sempre o mais valorizado de todos. Talvez sabendo que o livro girava sempre em torno do mesmo propósito, Tim Maia não vacilou e deu uma incorporação sonora jamais vista em outro dos seus discos. Mesmo que sonoramente os seus discos anteriores sejam melhores ou que seus discos posteriores sejam tão maravilhosos quanto, “Tim Maia Racional” destaca-se pela sonoridade estupidamente crua, principalmente na linha do baixo e da bateria. Uma cortesia sonora talvez jamais sentida numa música que, aparentemente, só tinha o propósito de divulgar uma filosofia religiosa – ou, como o próprio Tim diz no disco em várias faixas, “não é religião, não é seita, não é doutrina”.
Esse jeito único de ser do modo Tim Maia opera milagres, tornando faixas tecnicamente fracas em termos de letras como “Leia o Livro Universo em Desencanto” uma música para ser apreciada com o melhor dos gostos. Ou então letras de autopenitência, como “Bom Senso”, tornam-se pérolas magníficas em termos de profusão musical. O que é atingir “bom senso”? É somente a imunização racional, como diz o próprio Tim na letra? Ou será que nós temos que nos reciclar por toda a vida? Ou será reciclar o som? Tudo era Tim, independente de filosofia de terceiros.
O desencanto de Tim pelo “Universo em Desencanto”, entretanto, fez com que os discos, já pouco vendidos(muito mais pelo preconceito do que pela divulgação, embora essa fosse quase de maneira artesanal) fizeram que Tim Maia Racional, principalmente o segundo volume(ainda mais enérgico em termos musical, mas muito mais pobre em termos de letra que o primeiro), desaparecessem da vida das pessoas. Os que sobraram tornaram-se relíquias(não tão raras quanto chegou a se divulgar, mas difíceis de serem encontradas e caras) e hoje, mostram o talento de um certo Sebastião Rodrigues Maia – o homem Tim Maia, que o Jorge Duílio, hoje conhecido como Jorge Ben Jor, merecesse a honraria de ser chamado de “síndico”. Ou seja, o cara que quebra o pau e cuida da zona maravilhosa da música popular brasileira.